quarta-feira, 23 de março de 2011

Não tem preço

    Relembrar o dia de ontem tornou-se um passatempo e um passatempo divertidíssimo. Isso porque, claro, o dia de ontem não foi qualquer dia
de ontem. Nos últimos dias, confesso, tenho tido dias de ontem repletos de emoções, mas ontem foi diferente: vivi-lo também com satisfação.
E essa satisfação vivida no dia de ontem é que fez dele um dia especial, e suspeito que isso não se aplique apenas a mim...
Não bastasse o convite acolhedor, a expectativa, a escolha do presente, o corre-corre, a contratação da van, a decisão conjunta (?) do horário
da volta (!) fomos surpreendidos com uma recepção pra lá de animada, bonita e organizada, especialmente para quem? Para nós!
    Presidente, esposa do presidente, filha do presidente, a equipe toda do presidente: todo mundo reunido na Topic, como insiste
chamá-la a Sandra, assistindo à nova novela das sete (entre um no signal e outro) e gelando na estrada “lombadeada” e esburacada que
faz verdadeiramente jus ao nome de Estrada do Conde, como sabiamente comentado horas após.
Espumante, cerveja, aperitivos mil, a melhor manteiga (na lata ainda, pooodre de chique, como dizia um sábio professor que tive), tudo
preparado com o maior cuidado e a melhor atenção para receber, ouvir e compartilhar as histórias da piscina, da calcinha, da Sapucaí, dos filhos,
de amnésia alcoólica, dos torpedos, dos casamentos, do trabalho, do pandeiro, de Punta isso, Punta aquilo...
    Por momentos, olhei para toda a gente reunida. Olhava pra um grupo, para o outro... O burburinho de histórias e risadas se misturava e
se formava um silêncio, com um zunido gostoso ao fundo, o que me permitia ver quase que em câmera lenta os rostos das pessoas, suas expressões
felizes, e sentir que ali era um lugar de alegria, sim, e que eu estava em um lugar bom. Não estávamos em uma festa estranha com gente esquisita, não.
"Muito antes pelo contrário”, como se diz popularmente, estávamos todos em casa, porque a dona da festa nos soube e sabe acolher, com o jeitinho que só ela tem.
    A Paulete literalmente desceu do salto, entregaram o Maurício e seu passado ao Presidente, o Presidente serviu-nos merengue, o Bob esgotou o
estoque de espumante da casa, a Vanise viu seu futuro no recadastramento, todos discursaram e, entre risos e discursos, ficou uma única constatação:
tudo estava ótimo e a responsável pela união do povo e pela alegria do dia de ontem se deve à Sandra, a quem nós, hoje, devemos
em troca nosso muito obrigado! (Eu em especial, mas isso é conversa pra outro dia...)
    Afinal, comemorar o aniversário da Sandra, na casa da Sandra, com a Sandra e a família da Sandra e os amigos da Sandra não tem preço.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Valeu etc.

Já vi muitas vezes, em filmes hollywoodianos, que os nossos vizinhos norte-americanos parecem ter certa facilidade em despedir-se. E parece que isso é verdade; para eles não tem cerimônia! Quando muito soltam um “Bye” tímido, já que, na maioria das vezes, simplesmente viram o corpo e vão embora – walk away –, deixando para trás aqueles com quem travavam diálogo. A meu ver, o que eles têm é dificuldade – isso sim – de dizer Goodbye, porque o Adeus (palavra que soa forte demais no Português, inclusive), também conhecido como Então tá, Tchau, Isso aí, Bye Bye, Beijinho, Tchautchau, A gente se fala, Falou, Valeu etc., mais do que uma simples expressão linguística de despedida, representa uma ação que às vezes dói: o ir embora, walk away. E ir embora significa distanciar-se, romper laços, mesmo que momentaneamente, e isso é difícil, especialmente quando estes são sólidos laços de amizade. (Eu, já aviso, sofro da dificuldade dos americanos.)
Antoine de Saint Exupèry certa vez escreveu sobre cativar. Cativar é criar laços de amizade; quando nos cativamos, sentimos necessidade do outro; somos, enfim, eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Em seu famoso “Le Petit Prince”, Exupèry mostra a história de um menino, uma flor cheia de caprichos e uma raposa. O pequeno Príncipe sente-se triste ao deixar a flor, quando parte em sua viagem para outros planetas. “Ah, eu vou chorar!”, diz a ele a raposa, na Terra, quando ele está para ir embora, e tudo porque, como diz nosso amigo Antoine, “a gente corre o risco de chorar quando se deixou cativar”.
Mas, afinal, o que faz dos “cativados” seres tão especiais? Diria Exupèry que é o TEMPO, o famoso “melhor remédio” ou o “senhor da razão”. Para ele, é o tempo que se perde com a rosa que a faz tão importante. É o esforço, a convivência, a caminhada, o afeto, a mão amiga, atrevo-me a adendar. Enfim, é a cumplicidade que somente se cria com o tempo e a dedicação que faz as pessoas especiais e essências a nossa vida. E é porque nos cativamos assim, como rosas, que é impossível simplesmente walk away, mesmo que se saia pela porta da frente, com a certeza de que se vai voltar.
Eu não aprendi a dizer adeus. Mas sei que um simples tapinha nas costas acompanhado de um Até amanhã! não são suficientes às vezes. E quando me dou conta disso é que tenho vontade de chorar... E é quando eu escrevo, como hoje. Mas escrevo para culpá-los, amigos da 15ª Vara do Trabalho de Porto Alegre. Sim, culpá-los por me terem cativado. Se não o tivessem feito, não seria assim difícil. Seria mais fácil: era só dizer um simples Então tá e tudo se resolveria; nada de tantas palavras reunidas em forma de texto tudo pra dizer Tchau, elas não seriam necessárias. Sinto-me, contudo, no dever de manifestar meu sentimento de gratidão e felicidade em relação a vocês. Obrigada por me acolherem, por dedicarem seu tempo a mim. Sinto-me importante com a ajuda e extremamente grata pelo carinho a mim dispensados. Vou afastar-me da convivência com vocês, mas o sentimento continua o mesmo, por mais clichê que isso possa parecer. Espero que estejam felizes por mim, afinal. Eu estou. Por nós e por tudo que construímos.
(É aqui que viro as costas e vou embora. Nada de churumelas. Bye.)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Capítulo 3

Tudo muda e mais dois!


Aos 31 de dezembro daquele ano, meu primeiro irmão veio ao mundo e minha mãe, num repente de algumas horas de contrações e alguns minutos de fórceps, ficou magra novamente. E não tive nem tempo de me acostumar, contudo, com a ideia de um bebê novo quando, em um dia de outono, como que puft!, lá estava a gorda de novo. Não sei por que não consigo lembrar-me de minha mãe grávida. Quando a via, já estava à beira de explodir, parecendo uma chaleira de água fervente, toda nervosinha, cheia de tremelicos e uma sirene ensurdecedora: “é agooooora, é agoooora, vai nasceeeer, vai nasceeeer!”. Acho que, quando se é pequeno, o mundo é grande demais para ser notado e nós, minúsculos demais para entendê-lo.
Fomos os cinco morar, então, na casinha de madeira, enquanto meu pai, quando não trabalhava ou estudava ou me contava histórias mirabolantes inventadas em frações de segundos ou pagava as contas ou cuidava de minha mãe e de nós, construía a casa, por fim definitiva (minha mãe implicava com os tais consertos para sempre “provisórios” do meu pai), na frente da casa de madeira, no mesmo pátio, o que fazia, inclusive, com nossa ajuda. Cortei aramesinhos para a formação da estrutura das vigas, arrebentei chinelos, pintei grades, carreguei pedacinhos de tijolos, cortei o dedo, cortei de novo o dedo, arrebentei outros chinelos, cortei mais arames, dei palpites, construí uma minicasa para minhas bonecas com os tijolos da obra, brinquei de “fazer massa”, enfim, creio que tive papel um tanto essencial na construção da casa de meus pais, para a qual nos mudamos alguns meses depois da vinda do segundo bebê.
Tudo mudou desde então. De menininha da casa, passei a ser a ajudante mor da minha mãe nas tarefas: trocava fraldas, secava a louça, esforçava-me para manter-me longe de estufas e de bactérias (minha mãe me dissera que elas foram as responsáveis de minhas hepatite e meningite à época), contava histórias, tentava ensinar os meninos a falar, fazia os temas, ia para a escola agora sozinha, e voltava também sozinha e, aos poucos, ia aprendendo a me virar. A mãe precisava disso. Às vezes eu via que ela se culpava por não poder estar comigo do jeito como acontecia antes (eu até tinha sido expulsa da cama de casal depois de os meninos nascerem), mas simplesmente não me importava. Era tudo muito novo e foram momentos difíceis aqueles. E nem o Grêmio, por incrível que pareça, estava ajudando naquela época...
Um dia, meu primeiro irmão, um tanto agitado para sua parca idade, ficou mudo, não no sentido de perder a voz para o mundo, mas no sentido de estar definitivamente “aprontando”, nas palavras de minha mãe. Seu instinto maternal, pois, muito aguçado, dirigiu-a até o único quarto da casa, onde estava o bebê. Pequeno parêntese: (meu irmão primeiro adorava mel; o único método eficaz de fazê-lo parar de chorar ou resmungar era mergulhar sua chupeta em um pote da dita substância cristalina e levemente adocicada com um toque de frutas silvestres, o qual ficava, por esse motivo, propositadamente, ao lado da cama de casal, onde, nesse momento, o bebê estava). Quando chegamos ao quarto, melamo-nos: nós e ele. Sim, aos seis meses e pouco de vida o pequeno atrevido conseguira ir até o pote de mel e mergulhar não somente sua chupeta, mas os braços, as pernas, as mãos, o nariz, etc., no pote de mel.  A cena da overdose ficou gravada na memória como uma fotografia: um bebê de pernas gordinhas com um pote de mel entre elas, sentado na cama da mãe, com uma mão levada à boca e a outra mergulhada no pote: até hoje o guri adora mel. Deve ser por isso que ele vivia rodeado de formigas, como, por exemplo, as cabeçudas do jardim, que vinham vingar-se das milhares bichinhas torturadas (seja com a ajuda da lupa e do sol no telhado da casa, seja por banhos de imersão um pouco mais demorados que o normal) que deixávamos pelo caminho ao longo dos anos.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A fim ou não a fim: eis a questão.

Dizem que mulher é bicho triste, seja lá o que isso quer dizer. Dizem que mulher é confusa, complicada. Dizem que mulher é sentimental demais, exigente demais. Mulher, dizem, dirige mal, tem pouco senso de orientação, de espaço. O fato é que isso não é verdade, pelo menos não inteiramente.  Há fatos a respeito das mulheres e sobre os quais os homens não fazem a mínima ideia, pode apostar. Na verdade, o que toda mulher quer é saber o que os homens pensam e sentem, SE sentem alguma coisa.

Muita gente já deve ter visto aquele filme bacana intitulado "Ele não está tão a fim de você",
escrito por Abby Kohn e Marc Silverstein, dirigido por Ken Kwapis e estrelado por Jennifer Aniston, Scarlett Johansson, Drew Barrymore e Ben Affleck. A historinha é simples: romântica incorrigível, Gigi, a protagonista, dá uma volta com Conor, que simplesmente não dá sinal de vida no dia seguinte. Quando ela vai ao trabalho do pretendente, conhece Alex, colega de quarto de Conor. Alex tem uma visão muito clara sobre o mundo, e empenha-se em mostrar a verdade para Gigi em relação ao complicado (!) mundo da mente masculina. Enquanto isso, Conor está enrolado com uma cantora chamada Anna, mas ela gosta mais de Ben, que é casado com Janine e que, por sua vez, trabalha com Gigi. A chefe das duas, Beth, é namorada de Neil há sete anos, mas ele não quer casar. E por aí vai se enrolando a novelo.

A questão toda que martela na cabeça das mulheres é exatamente a incerteza sobre o sentimento e as vontades e ambições - se é que elas existem - dos homens. É saber a verdade, nada mais que a verdade, com palavras curtas e sinceras. É saber quem, pelo amor do bom Deus, é o homem certo, reconhecendo primeiramente os errados.

O homem errado, pra começar, é aquele que, depois de uma noite de qualquer que seja a coisa (menos de “amor”), vai te comprar uma pizza congelada em vez de te fazer um jantar.
O homem que não gosta de ti é aquele que vai te encher de mensagens no celular, mas nunca vai ter coragem de te convidar realmente pra sair. É aquele que vai te olhar e enxergar como uma bisteca, para ser o mais polida possível. É aquele que vai conversar contigo olhando pros lados, como se o que tu tivesses pra contar não fosse importante. Ele não vai nem conseguir fingir interesse. O homem errado pode tentar te impressionar e até obter êxito no início, mas isso não vai durar muito. Nunca dura. Mentira tem perna curta, como diria minha mãe.

Ao contrário, o homem que se importa com a gente é diferente. Ele vai se importar contigo, vai sentir ciúme, inclusive. O homem certo, por sua vez, é aquele que vai te dar chocolates, cartões, vai te ligar no exato momento em que tu mais estás precisando. O homem certo vai mover o mundo pra ir ao show de tua banda preferida contigo, e aparecer por lá sem ao menos esperares. Ele vai te levar pra jantar. Ele vai te levar pra fazer programas “de família”, vai te apresentar aos pais. Vai te levar teu suco de limão preferido num dos dias mais quentes do ano, à tarde, no teu ambiente de trabalho. Vai te entregar seu coração, nem que ele seja de papel. Ele não vai ter vergonha, nem medo de dizer que te ama. Não vai ter medo de que tudo dê certo. O homem certo vai estabelecer um plano contigo. Vai discutir os nomes dos filhos, vai te encher de elogios, vai ligar pra saber se tu levaste um casaquinho para não passar frio, num dia de frio. Ele vai te ligar pra dar boa noite todos os dias, vai conversar contigo, vai, mais do que isso, te ouvir. E olhar nos teus olhos quando tu falas, tudo isso com um sorriso nos lábios. E tu saberás que, sim, é ELE. Você vai mais do que ver, mas sentir que ele está muito a fim de você. E tu podes, inclusive, te sentir uma “boboca” em alguns momentos, de tanto achar sim-ples-men-te lindinhas as coisas que ele faz por ti.
E querer isso tudo não significa ser uma romântica incorrigível como a Gigi do filme. Ao contrário, é entender que, se alguém realmente gosta de ti, essa pessoa vai, pelo menos, querer estar contigo, até nos teus piores dias de TPM. E ele vai realmente querer saber como foi o teu dia, o que fizeste, vai dizer que está com saudades, vai contar o dia dele, vai pedir tua opinião, vai olhar pra ti e tu vais saber tudo. E não há nada de enrolado nisso. Tudo vai ocorrer “do nada”, sem que você espere ou peça ou implore ou faça até promessa pra santo. E tudo vai fluir com o tempo e como o tempo, assim, naturalmente. Saber quando ele não está tão a fim, então, é um grande passo para discernir quando ele estiver realmente a fim. O filme ajuda e a experiência alheia também. 

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O capítulo 2


               Estufada



                        Cada vez que me lembro desse episódio, fico pensando em que fim levou o galo. Nunca soube o que aconteceu com a pobre criatura depois que quase me deixou com um olho furado do tamanho do Vesúvio e um rasgo na perna da extensão e profundidade da falha de San Andreas. Meu pai, o lobo selvagem, a muralha da China, deve, com certeza, ter dado um jeito nele. Sei que a vizinha do lado, um dia, tocou à campainha e perguntou se não tínhamos visto um galo carijó gordinho que ela estava criando. A vizinha devia estar mesmo o criando tão bem que o animal se prestava, coitado, a procurar refúgio alimentício nos meus “canicinhos”. Eita, desespero! Um dia, fiquei com tanta pena do pobrezinho que pensei em oferecer-lhe um pedaço de bolo de milho que minha mãe tinha feito. Confeitei-o com veneno para os camundongos que faziam ninho em nosso aspirador de pó e deixei em cima do primeiro degrau da escada. É claro que isso ficou apenas na minha imaginação. Nunca pus o plano em ação, mas também nunca mais vi o galo. Foi a força do pensamento, dizem.
Quando a vizinha apareceu novamente perguntando, somente vi minha mãe sacudindo a cabeça com um singelo “não, não o vi...”, olhando para o alto, como se procurando a auréola perdida em algum lugar por cima de sua cabeça. Enfim, sei que, na verdade, não foi meu veneno de rato que matou o galo. Nem sei se ele morreu. Meu pai deve tê-lo posto na Chica, a Kombi recauchutada que usava para me levar à escola e carregar seus entulhos da marcenaria, e o deixado, perdido, em algum lugar, à espera de sua próxima vítima, a Morte, coitada. 
                        Claro que sempre me pus a pensar, se, de fato, o galo via, em mim, ou um grão de milho gigante com pernas ou uma pipoca estourada quentinha. Pensei, várias vezes, que ele me odiava, na verdade; eu devia ter ferido seus sentimentos de alguma maneira. Aqueles ataques todos só podiam ser vingança. Se não o eram, então ele era um galo de luta, daqueles de ringue, que põem a faixinha na cabeça e suas luvas de boxe no mínimo três vezes maiores do que eles e gritam: - “Vem, Mané”, de um jeito galo. O cara, então, treinava em mim. Só podia. E o ódio cresceu, desenvolveu-se, era isso. Ele me via como sua adversária, aquela que havia roubado seu milho e, portanto, transformara-se em um; a que ofuscaria seu brilho de galo, que acordaria mais cedo do que ele pra ir à escola na Kombi do pai, e os bichos da rua ouviriam não o seu majestoso cocoricó, mas o vruummmm, vrummmmm, check, check, check, poft, poft da Chica. Ele passou definitivamente a me odiar.
                        Um dia – e isso só pode ter sido praga do tal do galo carijó – sentei-me no sofá, como qualquer criança normal o faria, pulando de um lado para o outro, ao mesmo tempo em que assistia Tom & Jerry e enlouquecia minha mãe com as aventuras vividas no dia, e desequilibrei-me. Morávamos em uma casinha humilde de madeira, pequena, com um quarto apenas, uma pseudo-sala e uma semicozinha, além de um minúsculo banheiro e um porão que abrigava um galo, e uma família de camundongos que se reproduziam no aspirador, silenciosamente (foi engraçado quando meu pai encontrou seis minicamundongos pelados e cegos, com cara de quem acabara de acordar, dentro do saco do aspirador...). Era, então, um JK de madeira, e ainda por cima com frestas. Portanto, no inverno, minha mãe sempre ligava uma estufa para aquecer o lugar e a colocava ao lado do sofá, onde, sentada, eu costumava vê-la preparando deliciosos purês de batata. Desequilibrei-me, pois, naquele dia, e caí de cara na estufa quente. Diz minha mãe que fiquei com uma marca de queimadura enorme, a qual custou a sarar, mas, enfim, o fez. Até hoje agradeço por não ter ficado com uma marca em forma de galo no rosto, o que, relembrando os acontecimentos, pareceria perfeitamente razoável obra da vingança do galo! Ainda assim, ele, apesar de desaparecido, sempre esteve presente em minha vida; pelo menos lembro muito bem das vezes em que caí e bati a cabeça e a mãe falou: - “Olha o galo que ficou aqui!” e esfregava, esfregava, esfregava com força, tentando me consolar e enxugar minhas lagriminhas. Bicho medonho, não me saía da cabeça.
                        Passados, pois, os episódios da estufa e do galo, passei a prestar mais atenção no mundo a minha volta, o qual era constituído por muitas outras coisas além de galos, camundongos e estufas. Percebi, um dia, que minha mãe tinha ficado gorda. A gordura dela concentrava-se na área abdominal, o que me fazia achar aquilo horrível, bastante desproporcional. Um dia, criei coragem e perguntei o que seria: - “É a cegonha, meu amor!”, respondeu-me com todo o seu carinho de mãe. Confesso que fiquei estupefata: como ela conseguira engolir uma cegonha inteira sem ao menos ter a decência de me mostrar o animal antes? Sempre havia ouvido falar delas, as cegonhas, mas nunca, de fato, havia visto uma. Claro que achei, no mínimo, traição por parte da mãe, o que revi segundos depois, afinal ela jamais seria capaz da prática desse tipo de ato vil; e depois entendi que, na verdade, a cegonha (meu pai, como aprendi na televisão uns anos depois) é quem trouxera uma tal sementinha e a implantara na minha mãe por meios um tanto constrangedores. Era mais fácil mesmo inventar o papo da cegonha... Essa história da sementinha me fez pensar, com certeza, pois eu já me considerava crescidinha; afinal, já estava com seis anos completos e já havia sobrevivido a meningites, hepatites e infecções hospitalares de todos os tipos: era uma heroína para quem, um dia, havia sido apenas uma sementinha minúscula (a TV disse que ela seria tão pequena a ponto de não ser vista a olho nu; imagino como seja, pois, vestir os olhos, tapá-los, e quais consequências isso acarretaria, mas, enfim, se eles dizem, está dito...).

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Blé-blés

Eu, desde criança, sempre quis aprender a dirigir. Sempre. Tanto é que aprendi, à minha maneira, mas aprendi. Contudo, as duas últimas semanas têm me feito pensar a respeito dessa paixão que tenho não por carros, mas pela sensação de poder conduzir a mim mesma para onde bem entender, com a ajuda de um auto que funcione. Sim, porque, nos últimos tempos, em vez de servir-me como ajuda, eles têm me possibilitado é um bocado de preocupações.
Não bastasse a caixa de câmbio quebrada meses atrás, ou eu ter batido na traseira de um Lexus importadíssimo de propriedade de um senhor chinês vindo direto de Taiwan, ainda por cima, na semana passada, mais uma me ocorreu hoje, ao sair do trabalho. Estava eu dirigindo-me ao carro de minha mãe - que o gentilmente me emprestou para livrar-me dos contratempos e atrasos que um passeio de ônibus poderia causar -, quando notei que a luzinha do controle que aciona e desaciona o alarme não piscava. Apertei uma, duas, três vezes o botãozinho minúsculo: nada. Dei uma batidinha báááásica no controle e tentei novamente: nada! Olhei pra cima, contei até dez, bati o controle levemente contra o carro: nada! E o senhor guardador de carros ao lado: "Deu problema aí, dona?" Não, capaz, eu bato com o controle no carro, assim, por hobbie, entende? Oras! Vontade é que eu tinha de responder isso, ainda mais num dia como o de hoje, que, admito, não havia sido dos melhores. Enfim, dei um sorriso e respondi com um singelo "Pois é!", que diz tudo e não diz nada ao mesmo tempo. Pensei, então, que se abrisse o carro o alarme dispararia, mas eu teria a chance, talvez, de fazê-lo parar de apitar uma vez dentro dele, visto que situação parecida já me havia ocorrido. Tentei. BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. "É problema no alarme, né, dona" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ "Pois é!" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. E o BLÉ BLÉ não parava nunca. "Será que não é a pilha, dona?" BLÁ BLÉ BLÉ BLÉ "Pois é...", disse eu, já começando a considerar o que o sujeito me dizia. E em meio aos BLÉ-BLÉS resolvi ligar para o meu pai, que, a essas alturas, já deve estar considerando seriamente confiscar minha carteira de habilitação, visto que, em um período de mais ou menos seis meses, ele já teve que ir a meu encontro para tratar dos meus assuntos carrísticos por, no mínimo, umas cinco vezes. "Tá, já tou indo praí!" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ.
Todo mundo já passou pela situação de, em meio à tranquilidade de um dia ou uma tarde, escutar aquele bleblezinho ao longe que não acaba, e já deve também, no mínimo, ter pensado sobre quem seria o dono da porcaria do carro para fazer o alarme parar de apitar. Eu, contudo, garanto que, pior do que escutar o BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ ao longe, vindo do carro de outra pessoa, é estar parado ao lado do seu próprio BLÉ BLÉ, com o controle numa mão, celular na outra, sem poder fazer N-A-D-A e, ainda por cima, ser olhada pelos outros, assim, como se você fosse alguma espécie de ladrão ou coisa que o valha. Sim, porque todo mundo te olha atravessado, não sei se de fato, mas que olham, olham. 
E enquanto eu estava ali, com aquela cara de "não, não acredito!" ou "Capaz, o carro é meu mesmo, olha aqui a chave, foi só um desentendido", parou um carro, digo, um carrão (e com um donão) ao meu lado: "Ãhnn, oi. Você trabalha logo ali, não é?" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. "Ah, oi, sim, sim, trabalho." BLÉ BLE BLÉ BLÉ BLÉ "Vejo que tu podes estar precisando de ajuda..." BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ "Ah, então, pois é... Tô com um probleminha no alarme, como se pode notar; o carro nem é meu, é da minha mãe, e foi, obviamente, dar problema COMIGO, que nunca pego o carro. Mas, não, obrigada, embora esteja realmente precisando de ajuda... (BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ) .... meu pai está vindo em seguida. Obrigada." BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ "Certo. Só toma cuidado, porque essa zona é meio perigosa, tá?" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. "Certo, muito obrigada!" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. Confesso que, por um instante, eu cheguei a pensar "Bendito seja o BLÉ BLÉ", mas isso durou apenas os segundos que o donão levou para acelerar seu carro e dar continuidade ao seu trajeto. 
Minutos depois, chegou meu pai. Batidinha no controle aqui, batidinha ali, sacudidinha perto do ouvido para ver se havia algo 'solto': NADA! "Acho que é mal contato..." "Pois é... Só pode! Mas não podia ter sido mal contato, com a mãe, a dona do carro?? Tinha que ser comigo, que nunca dirijo ele??" Murphy responderia que sim, imagino. Mas decidimos, então, ainda em meio aos BLÉ-BLÉS e aos olhares desconfiados da vizinhança e de seus bichinhos de estimação que por ali passavam, que eu deveria ir até o shopping center (a duas quadras dali) e procurar a ajuda de um chaveiro. Fi-lo, então. Fui, voltei: com o meu dedo sobre o botãozinho, já nem olhando, apenas esperando para ouvir se teriam dado certo os mexe-mexes do senhor chaveiro e cruzando os dedos para tal, pressionei-o: TÃ TÃ TÃ. Ahhhh, aquele foi o mais magnífico dos sons já ouvidos por mim em minha inteira existência naquela semana. O alarme finalmente tinha voltado ao normal e eu poderia, depois de quase uma hora de blé-blés ensurdecedores, voltar para a casa e escutar novamente. 
"Então, o que que aconteceu com o controle?", perguntou meu pai, curioso. "Era a pilha... Hehehe", ri, timidamente. "Pois é...", disse ele. "É..." Moral da história: ande sempre com uma pilha de controle reserva, ou escute os conselhos do seu guardador de carro: eles podem ter alguma utilidade, afinal de contas.