Eu, desde criança, sempre quis aprender a dirigir. Sempre. Tanto é que aprendi, à minha maneira, mas aprendi. Contudo, as duas últimas semanas têm me feito pensar a respeito dessa paixão que tenho não por carros, mas pela sensação de poder conduzir a mim mesma para onde bem entender, com a ajuda de um auto que funcione. Sim, porque, nos últimos tempos, em vez de servir-me como ajuda, eles têm me possibilitado é um bocado de preocupações.
Não bastasse a caixa de câmbio quebrada meses atrás, ou eu ter batido na traseira de um Lexus importadíssimo de propriedade de um senhor chinês vindo direto de Taiwan, ainda por cima, na semana passada, mais uma me ocorreu hoje, ao sair do trabalho. Estava eu dirigindo-me ao carro de minha mãe - que o gentilmente me emprestou para livrar-me dos contratempos e atrasos que um passeio de ônibus poderia causar -, quando notei que a luzinha do controle que aciona e desaciona o alarme não piscava. Apertei uma, duas, três vezes o botãozinho minúsculo: nada. Dei uma batidinha báááásica no controle e tentei novamente: nada! Olhei pra cima, contei até dez, bati o controle levemente contra o carro: nada! E o senhor guardador de carros ao lado: "Deu problema aí, dona?" Não, capaz, eu bato com o controle no carro, assim, por hobbie, entende? Oras! Vontade é que eu tinha de responder isso, ainda mais num dia como o de hoje, que, admito, não havia sido dos melhores. Enfim, dei um sorriso e respondi com um singelo "Pois é!", que diz tudo e não diz nada ao mesmo tempo. Pensei, então, que se abrisse o carro o alarme dispararia, mas eu teria a chance, talvez, de fazê-lo parar de apitar uma vez dentro dele, visto que situação parecida já me havia ocorrido. Tentei. BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. "É problema no alarme, né, dona" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ "Pois é!" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. E o BLÉ BLÉ não parava nunca. "Será que não é a pilha, dona?" BLÁ BLÉ BLÉ BLÉ "Pois é...", disse eu, já começando a considerar o que o sujeito me dizia. E em meio aos BLÉ-BLÉS resolvi ligar para o meu pai, que, a essas alturas, já deve estar considerando seriamente confiscar minha carteira de habilitação, visto que, em um período de mais ou menos seis meses, ele já teve que ir a meu encontro para tratar dos meus assuntos carrísticos por, no mínimo, umas cinco vezes. "Tá, já tou indo praí!" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ.
Todo mundo já passou pela situação de, em meio à tranquilidade de um dia ou uma tarde, escutar aquele bleblezinho ao longe que não acaba, e já deve também, no mínimo, ter pensado sobre quem seria o dono da porcaria do carro para fazer o alarme parar de apitar. Eu, contudo, garanto que, pior do que escutar o BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ ao longe, vindo do carro de outra pessoa, é estar parado ao lado do seu próprio BLÉ BLÉ, com o controle numa mão, celular na outra, sem poder fazer N-A-D-A e, ainda por cima, ser olhada pelos outros, assim, como se você fosse alguma espécie de ladrão ou coisa que o valha. Sim, porque todo mundo te olha atravessado, não sei se de fato, mas que olham, olham.
E enquanto eu estava ali, com aquela cara de "não, não acredito!" ou "Capaz, o carro é meu mesmo, olha aqui a chave, foi só um desentendido", parou um carro, digo, um carrão (e com um donão) ao meu lado: "Ãhnn, oi. Você trabalha logo ali, não é?" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. "Ah, oi, sim, sim, trabalho." BLÉ BLE BLÉ BLÉ BLÉ "Vejo que tu podes estar precisando de ajuda..." BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ "Ah, então, pois é... Tô com um probleminha no alarme, como se pode notar; o carro nem é meu, é da minha mãe, e foi, obviamente, dar problema COMIGO, que nunca pego o carro. Mas, não, obrigada, embora esteja realmente precisando de ajuda... (BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ) .... meu pai está vindo em seguida. Obrigada." BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ "Certo. Só toma cuidado, porque essa zona é meio perigosa, tá?" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. "Certo, muito obrigada!" BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ BLÉ. Confesso que, por um instante, eu cheguei a pensar "Bendito seja o BLÉ BLÉ", mas isso durou apenas os segundos que o donão levou para acelerar seu carro e dar continuidade ao seu trajeto.
Minutos depois, chegou meu pai. Batidinha no controle aqui, batidinha ali, sacudidinha perto do ouvido para ver se havia algo 'solto': NADA! "Acho que é mal contato..." "Pois é... Só pode! Mas não podia ter sido mal contato, com a mãe, a dona do carro?? Tinha que ser comigo, que nunca dirijo ele??" Murphy responderia que sim, imagino. Mas decidimos, então, ainda em meio aos BLÉ-BLÉS e aos olhares desconfiados da vizinhança e de seus bichinhos de estimação que por ali passavam, que eu deveria ir até o shopping center (a duas quadras dali) e procurar a ajuda de um chaveiro. Fi-lo, então. Fui, voltei: com o meu dedo sobre o botãozinho, já nem olhando, apenas esperando para ouvir se teriam dado certo os mexe-mexes do senhor chaveiro e cruzando os dedos para tal, pressionei-o: TÃ TÃ TÃ. Ahhhh, aquele foi o mais magnífico dos sons já ouvidos por mim em minha inteira existência naquela semana. O alarme finalmente tinha voltado ao normal e eu poderia, depois de quase uma hora de blé-blés ensurdecedores, voltar para a casa e escutar novamente.
"Então, o que que aconteceu com o controle?", perguntou meu pai, curioso. "Era a pilha... Hehehe", ri, timidamente. "Pois é...", disse ele. "É..." Moral da história: ande sempre com uma pilha de controle reserva, ou escute os conselhos do seu guardador de carro: eles podem ter alguma utilidade, afinal de contas.